Aline Bei: “quando uma presença se estabelece, uma outra ausência se torna presença naquilo, naquela relação”
Em Uma delicada coleção de ausências, a autora retoma a escrita poética e fragmentada que marcou sua estreia em O peso do pássaro morto, mas agora mergulha ainda mais fundo nas feridas silenciosas da memória, da perda e da herança familiar
A tríade formada por O peso do pássaro morto, Uma pequena coreografia do adeus e Uma delicada coleção de ausências, de Aline Bei, revela universos recorrentes na obra da autora: o feminino, a perda, o abandono e a infância. Esses temas aparecem em diferentes perspectivas ao longo de seus livros, como se todas essas mulheres fizessem parte de um mesmo universo particular – um tecido literário que ressoa com o próprio mundo de subjetividades. “Os três livros em conjunto comunicam algo mais potente do que quando considerados individualmente, compondo uma experiência literária que transcende a soma de suas partes”, explica a autora.

A narrativa do terceiro e último livro é sobre três gerações de mulheres – neta, avó e bisavó – que passam a morar juntas, e a partir daí, fica evidente as diferenças de fases. Aline explica que elas enfrentam essas ausências, cada uma à sua maneira – e, quando uma presença se estabelece, uma outra ausência surge no lugar dela. “Há um jogo constante entre o que falta e o que se faz presente. A ausência da Glória é a mais marcante, mas há muitas outras. Algumas são temporárias, outras parecem definitivas.”
O livro é um recorte no tempo; por isso, nunca conseguimos identificar até quando uma ausência dura – e, quando ela retorna, o que revela o vazio por trás dessa presença.

Confira a entrevista exclusiva com a autora Aline Bei:
O título fala em ausências, mas há muita presença – principalmente na forma como os corpos e os gestos ocupam o texto. O que essa coleção representa para você?
O título foi a última coisa que surgiu por escrito neste livro. Pensando na obra completa, nessa tríade, nesses três livros, o pássaro foi a primeira coisa que veio, e veio com o título. Então, quando o título aparece primeiro e eu o assumo, ele se torna uma espécie de norte, algo que precisa ser inserido no trabalho para que ele sobreviva, para que continue fazendo sentido durante todo o percurso.
Já em A delicada coleção de ausências, a dificuldade foi justamente encontrar a unidade do texto. Encontrar o nervo da escrita e traduzi-lo em um título que pudesse coexistir em harmonia com os outros dois. Eu já pensava, ainda no fim de A delicada, que havia concluído uma travessia dessa trilogia.
O título, aliás, me veio como uma revelação no banho. A escolha do plural foi essencial: é uma coleção de ausências, não uma ausência. Porque esse é um livro geracional. As faltas, as perdas, as ausências estão inscritas nos corpos de todas essas mulheres.
Acho que o livro é, sobretudo, esse jogo do duplo.
Essa ideia da coleção me interessa porque essas ausências moldam quem somos; elas também constroem nossa subjetividade. Fazem parte da nossa vida a ponto de que retirá-las seria um risco – algo como o que Clarice Lispector dizia sobre a “terceira perna”: eliminá-la seria perigoso, porque romperia uma harmonia invisível.
O que você sente ao colocar essa obra tão delicada no final dessa trilha?
Sinto que foi assim que se deu no tempo. A minha pesquisa se desenrolou, se desdobrou dessa forma. Acho que, tendo já publicado o meu primeiro livro, ele escuta… Cada livro que eu escrevo tem uma escuta fina do que foi escrito anteriormente. Não é como se eu tivesse resolvido o que iniciei em um livro e, de certa forma, encerrado com esse trabalho, que é um romance.
Continuo investigando algo que começa em um livro, atravessa o outro e segue adiante, como um fio que vai sendo puxado, livro a livro. As histórias não são exatamente parecidas – são muito diferentes –, mas, em alguma medida, guardam uma semelhança. Acho que isso tem a ver com o meu estilo, mas também com os universos que acesso: esse lugar do feminino, da perda, do abandono, da infância. Esses temas retornam em cada obra de outro ponto, como se essas mulheres fizessem parte de um mesmo universo muito particular – o meu universo, o meu tecido, que encobre uma parte do meu mundo de subjetividades.
Senti que, juntos, esses livros diziam algo mais forte do que cada um isoladamente.
Meu trabalho não é apenas o livro que publico, mas a relação que ele estabelece com os outros, e o modo como o que fica nas entrelinhas contorna todo o projeto, impulsionando uma experiência coletiva e integrada entre leitor e leitura. Então, é como se eu fosse realmente uma autora de um livro que está sendo escrito aos poucos, e que vai sendo publicado em partes – mas que, no fim de tudo, é um grande livro só.
Os dois primeiros livros são escritos em primeira pessoa. E esse, ele é em terceira, e no tempo presente. O que motivou essa mudança?
A terceira pessoa já era uma inquietação. Eu tinha muita vontade de escrever uma história em terceira pessoa, mas não me sentia pronta. Já havia escrito alguns textos curtos, contos, nessa voz, mas ainda não tinha experimentado um romance inteiro. Esse desejo veio também do teatro – eu venho do teatro, fui atriz – e sempre adorei personagens. Quando eu compunha minhas histórias, percebia que havia uma protagonista, um centro nervoso no livro, alguém que narrava a si mesma. Essa voz tem uma força muito grande, né? Tudo converge para essa pessoa, para a sua subjetividade, para a forma como ela conta. As metáforas, as imagens, tudo se organiza a partir do olhar dela, dos recursos que ela tem para ver o mundo. É uma experiência íntima, que cria uma relação muito próxima com o leitor, mas, como criadora, comecei a sentir um desejo de expansão dessas subjetividades. Queria que o leitor saísse da leitura com várias possibilidades de interpretação, com diferentes lugares para assentar sua perspectiva. Que não gostasse apenas de uma personagem, mas pudesse pensar: “poxa, mas tem isso também, tem aquilo também”.
Nesse terceiro livro, naturalmente me senti mais pronta para escrever em terceira pessoa. E a história também pedia isso. Escrita assim, ela ganhava muito.
Sobre o tempo presente, como você pontuou, isso veio de fora. Eu fiz uma pós-graduação em Escritas Performáticas, e ela foi essencial para a composição desse livro. Os dois primeiros anos de escrita coincidiram com o período da pós. Eu escrevia dentro das oficinas, acumulando experiências e leituras incríveis.
O presente tem uma questão muito interessante: ele traz uma certa opacidade. O passado é o lugar da elaboração, da imaginação, da recriação do que vivemos. Já o presente é o instante da pele, da experiência pura – você não tem tempo para digerir, apenas vive. É ação, gesto, corpo.
Na obra Uma delicada coleção de ausências Laura é criada pela avó e depois passa a conviver com a bisavó. E são três gerações sob o mesmo teto. Como você enxerga o papel do cuidado e do abandono entre essas relações?
Essa é uma chave tão importante. Até que ponto a gente realmente pode cuidar de alguém se não consegue cuidar de si antes?
A Margarida, essa figura central e provedora da casa, é quem cuida de todos. Ela cuida da mãe, mas com certa resistência – porque há entre elas uma mágoa antiga, um ressentimento não elaborado, um silêncio que nenhuma das duas consegue transpor. Essa relação tem o tempo dela… E entre essas duas mulheres mais velhas, mãe e filha, há tanta coisa por baixo, tanta coisa não dita, que os gestos de cuidado da Margarida acabam endurecidos.
Ela faz o que precisa ser feito, mas a gente sente o peso disso. Tudo o que ela realiza continuamente, aquilo que antes fazia com a neta, e provavelmente fez com a filha – torna-se mais difícil quando se trata dessa mãe idosa, agora fragilizada. E essa fragilidade também é uma forma de comunicação. Quando a mãe chora, ela não expressa apenas dor; comunica o abandono que sente, o distanciamento que se instalou entre as duas.
Elas ficaram muito tempo sem se falar – nenhuma procurou a outra. E, com o avanço da idade, surge na Margarida uma culpa: a culpa de não ter buscado saber como estava essa mãe, de tê-la deixado sozinha enquanto o tempo se encarregava de torná-la vulnerável.
Então, o cuidado para Margarida vem sempre atravessado por essa dificuldade, por um certo sufocamento. E a casa, que já é pequena, parece ir encolhendo cada vez mais, cercando essas mulheres nos cômodos que compartilham.
Há também a relação da Laura com a Bisa, que é silenciosa de outra maneira. Elas não se conhecem, mas, ao mesmo tempo, pertencem a uma mesma linhagem, estão unidas pelo sangue. Elas se sentem intrigadas uma pela outra, e cada uma lida com isso à sua maneira.
Margarida, que é a ponte entre as duas, não percebe que algo está se construindo ali, à margem do texto. E mais adiante, sobretudo na cena final, fica evidente a cumplicidade entre essas duas, que estão em extremos da vida, mas que ousam gostar da presença uma da outra, cada uma com sua singularidade.
A Laura, por exemplo, olha para a bisavó com um fascínio quase estético: aquela senhora pequena, encurvada, tão diferente da avó, mais velha, mais silenciosa, com outras demandas. Já Filipa olha para Laura como uma projeção de Glória, que foi quem ela conheceu mais de perto, assustada com o frescor desse corpo jovem, com a sensualidade e o eros dessa menina, e também com tudo o que ela possa ter herdado dessa corrente de abandonos e dificuldades que atravessa gerações.
A personagem da Glória permanece como uma sombra ao longo da narrativa. Como foi, para você, construir essa ausência que é tão presente?
Foi difícil, Maíra, porque eu nunca tinha trabalhado com uma personagem ausente, um fantasma, de certa forma. O que a gente sabe dela não vem das suas ações diretas, porque ela não age em cena. A única ação concreta que temos é o abandono da filha, essa é, de fato, a ação mais contundente e inquestionável do livro. O resto é especulação, é o que se diz sobre ela. Essas falas vão construindo uma imagem cheia de interrogações: uma mulher muito bonita, sonhadora, artista, dona de uma liberdade sexual que escandaliza uma pequena cidade.
É curioso, porque essa mulher já tem um nome que carrega metáfora: Glória. Um nome que ilumina todo o texto, todo o processo. Então, fui me guiando por essa trama, por esse exercício de trabalhar alguém que não pode dizer o que é, justamente porque não está.
No início, me pareceu, e percebi isso também nos comentários que recebi, que essa ausência afastava um pouco o leitor da personagem, por conta da gravidade do ato que ela cometeu. Dentro de um olhar moral, a mãe que abandona a filha causa mais impacto que o pai ausente, justamente porque o abandono paterno é naturalizado, não choca tanto. Mas o abandono materno, na nossa sociedade patriarcal, causa espanto.
Só que, conforme o livro avança, esse fato vai ganhando outros contornos. Sem dar spoiler, claro, o julgamento que fazemos dela vai se transformando. Aquela figura que parecia distante, quase condenada, aos poucos se torna um espaço de escuta mais atenciosa, mais complexa.
E eu trabalhei essa presença ausente também na forma do texto. No livro físico, e isso quem lê no Kindle talvez não perceba, há uma escolha gráfica muito intencional: depois do prólogo, quando começa a cena do cuidado da Margarida com a Laura, existe uma coluna em branco na lateral da página. Num primeiro momento, o leitor pode achar que é apenas um espaço, um respiro, algo a ser preenchido. Mas como ele se repete ao longo do livro, vai se naturalizando. E essa foi a minha maneira de representar a ausência da Glória.
É aquele vazio que incomoda no início, a lacuna que faz a gente se perguntar: “por que o texto não vem até aqui? Por que ela não volta? Onde ela está?” – mas que, com o tempo, se torna parte da narrativa. A vida, com seus detalhes, vai nos puxando, e a ausência passa a ser assimilada, incorporada. Só mais para o final é que o leitor volta a sentir essa falta de forma mais intensa — quando o próprio texto começa a se desestabilizar, a “escorrer” pela página, a rarear, a quase desaparecer. A Glória, nesse sentido, foi quem guiou a forma do livro. Ela está ausente, mas é ela quem sustenta a estrutura, é o corpo invisível que molda o texto, o modo de narrar, e o silêncio que o atravessa.
Nos seus três livros eu percebi que a infância é um tema muito presente. Como foi quando você era criança?
Eu fui uma criança muito curiosa, muito atenta ao mundo dos adultos. Fui filha única por 12 anos, então, quando minha irmã nasceu, eu já era uma pré-adolescente. Foi muito bom tê-la, mas minha infância ficou marcada por essa expectativa de ter uma irmã, de ter outra criança em casa. Via meus primos mais nos fins de semana, e minha vida era muito permeada pelos adultos. Era uma criança tímida, reservada, mas, ao mesmo tempo, com um enorme desejo de corpo. Os esportes não vieram ao meu socorro, o que veio foi a arte. Acho que esporte e arte são entidades muito semelhantes, formas importantes de expressão, principalmente na infância. Engajar-se com o corpo salva muita criança da solidão e do silêncio.
A arte era mais próxima, foi o ímã. Comecei a ler muito cedo, adorava a biblioteca da escola, não tinha livros em casa, então aquilo era maravilhoso. Também sempre adorei música; era uma forma de entrar em contato com a palavra, que eu sempre gostei. Comecei a fazer teatro aos 14 anos, mas desejei ser atriz desde muito pequena, sem saber de onde vinha essa inclinação, já que meus pais não tinham relação com isso. Eu não ia ao teatro, o que eu conhecia eram as novelas — e, na minha infância, elas tinham uma força cultural muito grande. Hoje isso até começa a voltar um pouco, mas naquela época as novelas paravam o país.
O palco me dava uma espécie de poder que eu não tinha no cotidiano, o poder de dizer algo de uma maneira que causasse uma experiência no outro. Acho que sempre fui muito inclinada a esse tipo de ofício, mesmo pequenininha. Então, minha infância foi assim.
Para finalizar, o sentimento que tive ao terminar a leitura: desde o início do livro, e em toda a obra, foi de os silêncios e os gestos sutis, especialmente da Margarida, como preparar um café, lavar roupa, dar banho na Laura, parecem dizer mais do que as palavras. Você acredita que esses pequenos rituais salvam?
Eu não sei se eles salvam, mas eles revelam. E você tem muita razão. Esse era um livro de rotina, de presente, então eu queria que todas essas atividades que a gente naturaliza, e às vezes quase nem percebe no dia a dia, estivessem em um estado de dilatação no texto. Porque é a partir desses gestos que a leitora e o leitor podem encontrar essa camada subterrânea, algo que está fervendo por baixo e vai se revelando aos poucos.
Como o silêncio é a língua materna desse texto, e a própria Margarida reflete sobre isso quando pensa na Glória, o silêncio perpassa gerações. A Felipa, a Margarida, a Glória e a Laura têm muitos segredos que não compartilham umas com as outras. Esses segredos, esse desejo de fuga – que também é muito enraizado em todas essas mulheres – se materializa no texto. Está nos gestos de fechar um portão, olhar por uma janela com grade, estender roupa no varal.
O Foucault tem um texto lindo sobre as heterotopias – esses espaços criados dentro de um espaço normativo, onde o lúdico encontra brecha. Quando a Margarida, por exemplo, depois de pendurar as roupas, se senta com o Camilo para tomar um vinho na madrugada, ali há uma heterotopia. Dentro dessa pequena casa, com suas tarefas diárias e repetitivas, surgem momentos de festa, de sonho, de criação – breves escapes onde o livro também sonha.
Fui tentando encontrar, nessa pequena casa, esses lugares: o banho, o banheiro – esse espaço azul, interino, onde elas renascem a cada vez que o habitam –, a cama dividida com a bisa, símbolo tão forte. A menina dorme com a avó, depois com a bisa, e a amiga dela diz: “foi quando dormiu com o futuro”. E a Margarida lê mãos, lê futuro. Tudo isso se conecta dentro da casa, formando uma tessitura, uma cama para a interpretação do livro, que nunca diz o que é – apenas sugere, suspende, oferece. Quem cria o que realmente acontece é a leitura. Eu confiei que leitoras e leitores fariam esse caminho.
Maíra Oliveira Graça é parte da equipe do Le Monde Diplomatique Brasil.

